Conceição da Costa Neves: primeira mulher a presidir a Alesp e voz forte na defesa da saúde pública
08/03/2026 06:00 | Dia Internacional da Mulher | Da Redação - Fotos: Acervo Histórico da Alesp
A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo conta, na atual composição da Casa, com a maior representatividade feminina da sua história. Hoje, 26 parlamentares mulheres representam a população paulista - ao todo 29 participaram da atual legislatura. Embora ainda haja muito espaço para avançar, a participação feminina vem crescendo ao longo do tempo e isso se deve ao trabalho e ao legado de muitas mulheres ao longo de quase 90 anos.
Uma das pioneiras foi Maria da Conceição da Costa Neves - figura marcante da história política paulista. Eleita por seis mandatos, a principal área de atuação da parlamentar foi a saúde e a defesa dos pacientes da "lepra": nome popular e antigo da doença hanseníase.
Vice-presidente da Alesp entre 1960 e 1963, foi a primeira mulher a presidir - ainda que interinamente - um parlamento estadual no Brasil durante viagem do presidente Abreu Sodré ao exterior.

Vida além da política
Nascida em 17 de outubro de 1908, em Juiz de Fora (MG), Conceição teve uma infância marcada por dificuldades financeiras. Apesar das limitações, conseguiu estudar e concluir sua formação básica. Em sua autobiografia Rua sem Fim (1984), relatou episódios da infância, como os longos trajetos a pé para frequentar a escola, muitas vezes descalça e sem lanche.
Ainda jovem, iniciou carreira artística. Aos 21 anos, adotando o nome artístico Regina Maura, estreou nos palcos em 1930 na peça Dinheiro anda por aí, encenada pela Companhia Procópio Ferreira no Teatro Trianon, no Rio de Janeiro. Ao lado da companhia, percorreu diversas cidades brasileiras e ganhou destaque no teatro de comédia. Em 1934, foi eleita "rainha das atrizes", título concedido em cerimônia realizada no Teatro João Caetano, na então capital federal.
Durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1943 e 1945, passou a se dedicar a atividades humanitárias. Atuou como diretora da Cruz Vermelha Brasileira em São Paulo e também foi samaritana e monitora da entidade. Nesse período, fundou a Associação Paulista de Assistência ao Doente da Lepra, iniciativa que a aproximou de movimentos sociais e da defesa de políticas públicas de saúde.
Entrada na política
A visibilidade conquistada com esse trabalho a levou à política. Em 1947, foi eleita deputada estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), com 12.119 votos, tornando-se a única mulher entre os 75 parlamentares da Assembleia Constituinte paulista daquele ano. Foi também uma das fundadoras do PTB.
Na Alesp, destacou-se pela defesa dos pacientes com hanseníase e de suas famílias. Visitou "leprosários" no interior do estado e denunciou publicamente as precárias condições das instituições. As investigações realizadas pela Assembleia sobre o tema resultaram na publicação de um relatório considerado a primeira Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da história do Legislativo paulista.
Conceição foi reeleita sucessivamente ao longo das décadas seguintes. Pelo PTB, exerceu mandatos nas legislaturas de 1951 a 1955 e de 1955 a 1959 - tendo sido uma das mais votadas nas duas ocasiões. Na 4ª Legislatura (1959/1963), já pelo Partido Social Democrático (PSD), foi membro efetivo na Comissão de Saúde Pública e Higiene e suplente na de Finanças e na de Serviço Civil.
Em 6 de outubro de 1962, também pelo PSD, foi a mais votada no Estado de São Paulo, com 32.097 votos. Integrou na 5ª Legislatura (1963/1967) as comissões permanentes de Saúde e Higiene e de Finanças e como efetiva as de Divisão Administrativa e Judiciária, de Assistência Social e de Economia.
Nas eleições de 15 de novembro de 1966 foi mais uma vez reeleita deputada estadual, desta vez pelo MDB, com 45.018 votos, tendo sido a mais votada do partido e a segunda no geral, dentre 115 vagas. Foi membro efetivo da Comissão de Saúde e Higiene e presidente da Comissão de Finanças, além de suplente na de Economia. Foi eleita novamente 1ª vice-presidente da Alesp, em 1967, exercendo a função até 1969.

Conceição em reunião da Comissão de Saúde e Higiene em 1957
Em 1966, já sob o regime militar e após a implantação do bipartidarismo, filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição ao governo.
Em 25 de janeiro de 1968, Conceição da Costa Neves participou das solenidades de transferência da sede da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo do Parque D. Pedro, do velho prédio do Palácio das Indústrias, para sua nova sede, no Parque do Ibirapuera.
Foi novamente eleita deputada estadual, mas teve o mandato cassado em 1969 com base no Ato Institucional nº 5 (AI-5), além de perder os direitos políticos por dez anos.
Mesmo afastada da política institucional, continuou atuando em movimentos sociais e participou da campanha pela anistia aos perseguidos pelo regime militar durante a década de 1970. Paralelamente, dedicou-se à literatura, publicando obras como os livros de poemas Na Esquina do Mundo (1970) e Na Praça da Vida (1976), além de sua autobiografia.
Maria da Conceição da Costa Neves morreu em 15 de julho de 1989, em São Paulo. Seu velório foi realizado no Hall Monumental da Assembleia Legislativa. Ao longo de sua trajetória, deixou uma marca pioneira na política brasileira e no Legislativo de São Paulo, abrindo caminho para a participação feminina na vida pública. Além disso, marcou de forma contundente a história da hanseníase no Brasil.
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